12/02/19

Coisas que mudaram em mim #5


Pus de parte a ideia de querer viver noutra cidade

Passei três anos e meio entre o Porto e a cidade onde vivo, nos Açores. Três anos e meio em que só vinha a casa na altura das férias, passando a maior parte do tempo lá no Porto. Claro que comecei a habituar-me a estar lá. Era tudo tão diferente, via imensos aspectos positivos em viver lá e já não me imaginava a regressar a casa definitivamente, por muito que gostasse de voltar para passar férias.

Regressei para fazer o estágio curricular, depois continuei por cá por ter encontrado um estágio profissional, e assim fui ficando. A princípio, foi como que um choque. Parecia que já não me sentia tão livre. Rapidamente, comecei a sentir falta das coisas que tinha lá fora e que não tenho aqui. Com isto, não me refiro apenas à questão de viver por minha conta. Senti falta, por exemplo, de ir a grandes eventos e de ter a possibilidade de ir passear e de ir conhecer tantos sítios diferentes no meu tempo livre. Senti que, se estivesse lá fora, podia já ter conhecido tantas cidades noutros países, pois é tudo tão mais acessível a partir de lá.

Comecei mesmo a detestar viver aqui nos Açores, sentindo-me arrependida de não ter procurado estágios lá no Porto ou mesmo noutra cidade e desejando uma oportunidade para sair daqui sem olhar para trás. Sentia-me tão presa, tão limitada. Mas, ainda assim, fui ficando.

A verdade é que tudo é uma questão de hábito, e, tal como me habituei a viver no Porto e a passar três anos e meio entre cá e lá, também acabei por me habituar a viver aqui.

Penso que foram umas viagens que fiz a Lisboa que me fizeram mudar de ideias. Não estas mais recentes, mas antes dessas. Apesar de já ter ido a Lisboa tantas vezes, essas viagens esgotaram-me. Deixaram-me exausta e com a cabeça numa confusão. Porque tudo parecia ser um stress. Comecei a notar o quanto as pessoas andam apressadas. Sem pararem para observar nada, sem olharem em volta, sem sequer abrandarem o passo. Sempre a correr, sempre num frenesim. Sempre focadas no seu destino e em chegar lá o mais depressa possível. É um ritmo completamente diferente, que eu nunca tive. Nem sequer quando vivi no Porto. Mesmo lá, vivi nas calmas.

Passei a detestar a confusão, as multidões, os transportes. O tempo perdido em transportes. Pensei em como andava tão pouco de carro para ir de casa para o trabalho e vice-versa, em como não existiam aquelas filas de trânsito intermináveis. Pensei em como podia ir à praia ou à esplanada depois do trabalho, uma vez que conseguia pôr-me lá em dez minutos. Pensei em como não podia fazer este tipo de coisas, que acho tão simples e normais, caso vivesse num ritmo tão stressante e tão apressado, em que tudo é tão longe e em que se perdem horas de vida em transportes, sejam eles públicos ou não.

De repente apercebi-me e dei valor à questão da qualidade de vida que dizem existir aqui onde vivo. O ritmo e o tipo de vida das grandes cidades começou, de súbito, a desencantar-me, para passar a ser uma grande confusão e algo esgotante e que me põe os níveis de stress em alta. Agora digo que não quero esse ritmo e esse tipo de vida para mim. Não quando posso pôr-me em qualquer lado rapidamente, onde o trânsito infernal não existe, onde posso viver e caminhar nas calmas e onde tenho tanto o mar como a natureza tão perto de mim.

É verdade que tudo não deixa de ser uma questão de hábito e que eu, se tivesse mesmo que viver numa grande cidade, acabaria por me habituar, eventualmente. Mas também tenho a possibilidade de escolher, para além de que estou a aprender a escolher o meu bem-estar acima de tudo. E, hoje, sinto-me bem aqui.

Claro que não deixa de ter as suas desvantagens. Ainda sinto falta de grandes eventos e de bons seminários e fico sem saber para onde ir aos fins-de-semana, por achar, ainda que erradamente, que já visitei tudo quanto havia para visitar – afinal, vivo numa ilha; não tenho para onde fugir. E também me entristece o facto de não poder ir para um outro país com tanta facilidade, devido à falta de voos directos.

No entanto, existe uma coisa que não é fácil de encontrar noutro lugar: a tal qualidade de vida. Que, para mim, acabou por se tornar crucial e impagável. Há quem me ache tola por não aproveitar para recomeçar em qualquer outro lugar, mas, por enquanto, e se não surgir nada em contrário, permanecerei aqui. Duvido que encontrasse algum outro sítio onde me sentisse tão bem.

Para além disso, não deixo de poder ter o melhor dos dois mundos. Se puder ter aqui a tão desejada qualidade de vida e ainda ter a possibilidade de ir lá fora de vez em quando, a algum evento ou de férias para qualquer lado, então por que não?

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