04/04/20

Março

Se eu achava que Fevereiro tinha sido estranho, então o que dizer de Março? Logo Março. O meu mês de aniversário e um mês em que tinha tanta coisa pensada. Estava mesmo a contar que fosse um mês interessante.

Começou de uma forma um bocado triste e desanimadora, em parte devido ao facto de estar prestes a fazer anos. Na manhã do meu aniversário, que foi nos inícios do mês, acordei triste, deixei-me ficar na cama e só queria ficar sozinha, até porque não tinha nada planeado. Estava triste porque mais um ano se tinha passado e tudo continuava mais ou menos na mesma. Porque os anos parecem apenas passar por mim e eu só assisto.

Mas lá ganhei forças para me levantar, para me vestir e para sair de casa, mesmo em baixo. Fui almoçar com o meu pai a um dos meus restaurantes favoritos, à beira-mar, na esplanada. O dia estava tão bonito, a comida deliciosa como sempre, aquela vista fantástica sobre o mar, e eu comecei a animar-me. Recebi bons presentes. Depois, acabei por ir jantar fora também, desta vez com a minha mãe. Uns tios meus também nos acompanharam, sem eu ter estado à espera. Fomos a outro dos meus restaurantes favoritos e foi bastante agradável. Não tive bolo de aniversário, porque eu própria não o quis; aliás, não quis fazer a tradicional festa em casa com a família, pois não estava mesmo com espírito e vontade para tal. Em vez de bolo, comi um delicioso brownie com uma bola de gelado de After Eight como sobremesa, que me soube pela vida. No dia a seguir, jantei com o R., que me preparou um jantar romântico à luz de velas – e aí acabei por ter bolo! Não estava mesmo nada à espera – presumi que jantaríamos num restaurante – e soube tão bem, achei um gesto tão querido e senti-me tão grata e feliz. Depois de tudo isto, achei que tinha sido mesmo tola por ter acordado tão triste no meu dia de anos.



No dia a seguir ao jantar romântico, fui para Lisboa, onde passei uns dias com a minha irmã. Durante o fim-de-semana, estive também com uma amiga dos tempos de escola, que costumo reencontrar em situações assim, em viagens. Em Lisboa fui a um almoço de sushi fantástico, a um belo buffet vegan e a um brunch maravilhoso. Foi a primeira vez que fui a um brunch – aqui onde vivo há pouquíssimos estabelecimentos que o fazem – e será, sem dúvida, uma experiência a repetir. O sítio, o Stanislav Café, era muito giro e fofinho e comi tudo a que tive direito: ovos mexidos, ovos estrelados, tostas com salmão e abacate, panquecas, enfim. E provei um chai latte, que é algo mesmo maravilhoso – e fiquei a roer-me porque só pensava em como devia ter pedido um para mim.

Fui às exposições do Harry Potter e das marionetas do Tim Burton, ambas muito fofinhas e muito interessantes, embora tivesse achado que as entradas deveriam ser mais limitadas – detesto ver uma exposição à pressa e com imensa gente à minha volta, a falar muito (e alto, por vezes), a querer tirar fotos a tudo. Os espaços eram pequenos, e o facto de estarem sobrelotados e, por isso, barulhentos, fez com que não tivesse tirado o melhor partido das experiências. Mas, multidões à parte, gostei bastante.

Ainda em Lisboa, fui ainda ao concerto dos Anathema, sobre o qual falei na publicação anterior; revi mais dois amigos dos tempos de escola e passámos um serão bem divertido; desfrutei do sol e de jardins e de esplanadas – parecia que já era verão –; fui às compras que nem uma maluca; fui buscar mais algum material de desenho. E soube-me bem estar fora por um bocadinho, mudar de ares, fazer coisas diferentes. No dia de regressar a casa, já as coisas estavam a começar a mudar aos poucos e um maior alarmismo já se fazia sentir; já estava consciente de que, assim que estivesse em casa, teria que me isolar. Especialmente tendo passado aqueles últimos dias em lugares cheios de gente.

Regressei na noite de doze de Março, pelo que me mantenho em casa desde aí. Penso que ter estado fora antes disso fez com que entrasse nesta fase de isolamento como que renovada – como se tivesse recebido um boost de energia –, com boas recordações e grata. Grata por ter tido essa possibilidade e por ter conseguido chegar a casa em segurança, por estar bem, por ter saúde, por ter uma casa para onde voltar. Aliás, acho que nunca dei tanto valor a estas coisas como neste mês que se passou.

Nos primeiros dias de quarentena, o sol brilhou e o calor fez-se sentir, como se eu tivesse trazido o clima de Lisboa comigo. Foi algo que também deu outro ânimo, outra motivação e energia para enfrentar este período. Desfrutei do sol a ler na varanda e até almocei lá fora nesses dias, o que soube tão bem.

Em casa, tenho desenhado bastante; tenho já mais alguns rascunhos em que trabalhar e muitas outras ideias em mente. Estou a regressar à escrita, escrevendo com mais frequência – e isso deixa-me entusiasmada. Estou a ler Coração Negro, que estava a ser um tormento no início e eu estava a arrastar-me pelas páginas; mas depois, finalmente, começou a tornar-se muito interessante. Ando a fazer mudanças e limpezas em casa, a pintar móveis e a mudar-me para outro quarto; coisas que estão a ser bastante cansativas mas que, no final, certamente valerão a pena. Vi, finalmente, o Frozen II, que adorei, achei tão fofinho e cheio de lições valiosas e de palavras sábias; a própria história está tão bem conseguida, e, visualmente, nem se fala! Tenho aproveitado para fazer novas experiências na cozinha: já experimentei uma nova receita de panquecas, uns pãezinhos de leite e umas bolachas de maçã e canela. Todas elas saíram muito bem. Também tentei fazer um chai latte. Obviamente não ficou como o que provei em Lisboa, mas ficou muito saboroso e reconfortante. Tenho feito, também, alguns exercícios de pilates. Custa-me sempre começar, pois a motivação para fazer exercício em casa, sozinha, é quase zero; mas, depois, acabo por me sentir tão bem.

Este mês também celebrei um ano de namoro com o R.. Apenas estive com ele uma vez no mês inteiro e ando cheia de saudades dele, mas, de vez em quando, lá fazemos uma videochamada para tornar as coisas menos difíceis; para, de certo modo, estarmos mais próximos. Eu acho que, superando este período difícil, seremos, depois, capazes de superar qualquer outra coisa. É nestas alturas que eu penso como foi bom esta crise ter surgido agora, neste momento, em vez de há alguns anos, quando a tecnologia não nos oferecia tais possibilidades de nos aproximarmos de quem nos é mais importante, mesmo que estejamos fisicamente tão distantes.

Assim foi Março, com um começo, meio e fim tão diferentes entre si. Terminei o mês de uma forma estranhamente tranquila, como que me deixando levar por estes últimos acontecimentos – o que há-de uma pessoa fazer nestas circunstâncias, para além de levar as coisas com calma e ir vivendo um dia de cada vez? –, e assim entrei em Abril, que nem parece um novo mês, mas antes como um prolongamento do mês anterior. Mas estou bem, física e psicologicamente, e mantenho a esperança de que tudo isto vai passar e que vamos todos ficar bem.

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